O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) que trata da relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Antes de decidir se inclui Moraes nas investigações ou se envia o caso para abertura de inquérito, Mendonça fixou prazo de cinco dias úteis para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifeste sobre o material encaminhado pela PF.
O relatório foi produzido após determinação anterior de Mendonça para que a PF reunisse, em 72 horas, todas as menções encontradas nos arquivos de Vorcaro e nas referências feitas por Moraes a autoridades da investigação.
O caso ganhou novo contorno com a análise de documentos, mensagens e metadados de arquivos digitais ligados ao empresário e ao escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF.
Contrato milionário e metadados dos arquivos
A investigação aponta tratativas entre Vorcaro e a advogada que resultaram em um contrato de prestação de serviços advocatícios assinado em 23 de janeiro de 2024. Segundo o material, o acordo previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos, totalizando R$ 108 milhões líquidos, ou R$ 131,2 milhões em valores brutos.
De acordo com a PF, a análise dos metadados dos arquivos digitais mostrou alterações feitas em um perfil do Office 365 identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
Em nota enviada à imprensa, o escritório Barci de Moraes confirmou o acesso do ministro, afirmando que o setor de compliance o consultou na condição de marido da sócia-diretora apenas para verificar possíveis impedimentos legais para a contratação. O escritório também declarou que Moraes nunca julgou causas ligadas ao Banco Master.
Mensagens no celular de Vorcaro
Segundo a PF, conversas encontradas no telefone de Daniel Vorcaro, apreendido em novembro de 2025 na Operação Compliance Zero, indicam que a aproximação entre o banqueiro e o ministro teria sido intermediada em dezembro de 2023 pelo ex-ministro Fábio Faria, responsável por marcar encontros presenciais.
Depois disso, a comunicação teria continuado por WhatsApp, com Vorcaro enviando mensagens em formato de visualização única após escrever textos no bloco de notas do celular. A PF afirma que Moraes respondia da mesma forma.
Investigadores sustentam que os diálogos sugerem o repasse de informações sensíveis sobre o andamento inicial da Operação Compliance Zero, incluindo datas e horários de diligências planejadas pela PF.
Atuação do ministro e debate jurídico
A decisão de Mendonça de retirar o sigilo sem levar o tema ao colegiado do STF também foi alvo de críticas no próprio debate jurídico citado no texto-fonte. Para o advogado Victor Barau, a exposição pública do caso sem apreciação coletiva contraria regras internas da Corte.
Na avaliação de Barau, porém, o principal elemento novo do relatório é técnico: a leitura dos metadados dos arquivos localizados no celular de Vorcaro. Ainda assim, ele pondera que o material não permite, por enquanto, concluir pela prática de crime por parte de Moraes.
Hugo Albuquerque, advogado e editor da Autonomia Literária, afirmou que a divulgação do caso em meio a disputas eleitorais pode ter leitura política. Na visão dele, a cronologia do vazamento sugere instrumentalização. As declarações, no entanto, são de caráter opinativo e foram apresentadas como análise dos juristas.
Pagamentos, cartões e outros episódios citados no relatório
O relatório da PF também menciona outros episódios ligados ao relacionamento entre Vorcaro e o escritório Barci de Moraes. Em 2 de outubro de 2025, conforme a apuração, a executiva Adriana Solano perguntou a Vorcaro sobre um pedido para emissão de cartões de crédito com limite de R$ 300 mil cada para Giuliana e Alexandre Barci de Moraes, filhos do ministro. Segundo o texto-fonte, Vorcaro autorizou a emissão.
Ainda de acordo com o relatório, Vorcaro teria orientado funcionários do banco a manter em dia os repasses ao escritório de Viviane Barci de Moraes, descritos por ele como o pagamento mais importante da instituição. O Banco Master teria pago R$ 80,2 milhões ao escritório em 22 parcelas entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025.
Os valores, as conversas e a análise dos arquivos colocam o caso no centro de uma apuração que ainda depende da manifestação da PGR e da decisão final do STF sobre o futuro das investigações.
Próximos passos
Com a retirada do sigilo, o relatório passa a circular com acesso público, enquanto a PGR avalia o conteúdo para indicar ao STF qual encaminhamento considera adequado. A decisão de Mendonça sobre abrir ou não nova etapa investigativa ainda depende dessa manifestação.
O conteúdo desta reportagem se baseia no material divulgado e nas manifestações atribuídas aos envolvidos no texto-fonte.





Comentários (0)
Entre para participar da conversa.